Voltei, voltei, voltei!

E aí, como estão? Aproveitando bastante? Assim, comentaram que estavam triste pelo término da história, mas eu ainda faço um post contando a história por trás da hstória toda para vocês. Se eu e a Gabi fôssemos colocar no papel, já leva três anos que estavam escrevendo Sin Resistir la Tentación, então, acho que já está na hora de começar a criar o seu final, certo??

Quem aí sofreu com o capitulo anterior? Quem ficou com pena do nosso protagonista danado? Como vocês reagiriam se estivesse no lugar?

Bem, esse capítulo é mais intenso que o anterior e espero que vocês gostem na mesma proporção. Eu simplesmente A - M - O! Comentem, comentem, comentem! :D


Capítulo 18

POV ISABELLA

Eu estava na cama. Olhando para o vazio. Os olhos desfocados. Com o pijama de dois dias. Fazia duas semanas que eu não aparecia no ateliê. Eu simplesmente não tinha forças para levantar, me arrumar e ir até lá dar as minhas aulas. Não que eu não quisesse, eu apenas não era boa em me recuperar, eu era fraca. Sempre tinha sido assim, a maior prova era a morte dos meus pais que até hoje me perturbava. Jake tinha sido mais ameno de lidar, uma vez que ele não queria mais a minha companhia e eu tinha... A ilusão comigo. Eu não falava o nome dele. Não importava o assunto ou quão abalada eu estava, eu não diria. Eu estava arrasada sim, mas eu ainda tinha um pouco de dignidade apesar da minha mente insistir em me manter pensando nele.

Rose e Alice apareciam todos os dias e ligavam de hora em hora para saber como eu estava. Eu me sentia débil, por que elas também estavam sofrendo com a partida de seus respectivos... Casos, mas nenhuma delas foi banhada com a surpresa de ter sido ‘apostada’ com os amigos. Isso era tão infantil, tão coisa de garotos de 15 anos que eu ainda me recusava a acreditar que algo desse tipo pudesse ter acontecido. O pior de tudo era que ele apenas tinha ficado comigo um mês. ‘E como’, eu me perguntava, ‘ele conseguiu me conquistar dessa maneira? Como?!’ Era inaceitável, já que eu fiquei com Alejandro quase um ano antes de descobrir a traição. E eu pensava que eu gostava dele. Mas... A ilusão? A ilusão foi completamente diferente. Tão diferente, que eu não consegui enxergar o óbvio.

A minha alimentação estava péssima, meu sono precário, eu estava como um zumbi, fora toda as horas que eu passava chorando. Não por que eu estava sentindo falta dele – eu me recusava a acreditar nisso! – mas por eu ter sido estúpida, ter deixado alguém entrar na minha vida tão rapidamente para depois me abalar daquela forma. Era tão inacreditável que eu pudesse ter aberto as portas do meu coração para ele que isso me feria mais do que a própria aposta. Mesmo sabendo que ele iria embora, eu deixei entrar, me conhecer, dormir comigo. Isso me destruía.

Tentando reagir e lembrando a mim mesma que eu precisava de um banho, me arrastei até o banheiro. E ali eu tentei bloquear as lembranças, por que qualquer lugar daquele apartamento me lembrava ele. Na semana passada, eu tive um surto quando entrei no meu ateliê e vi o meu quadro lá, pintado por ele. Derrubei tudo que tinha na minha frente, CDs, DVDs, almofadas; agarrara os tapetes e espalhei-os até conseguir chegar naquele maldito quadro. E quando o peguei, as mãos firmes agarradas na moldura, olhei frustrada para o desenho perfeito. E não consegui. Não consegui destruir. Por que o quadro era perfeito com a minha imagem ali.

Mesmo aquela marca de possessividade me fazia querer mais e mais ainda aquele quadro. E eu tinha a plena consciência que quando o meu transtorno passasse, me arrependeria de tê-lo destruído por causa do momento de raiva. Então o soltei e pus-me de joelhos devolvendo tudo ao seu lugar. De volta ao meu banho, abri o chuveiro e fiquei encostada, sentindo a parede fria nas minhas costas enquanto a água morna caia no meu corpo. Até ali eu chorava. E as minhas lágrimas se misturavam com a água. Eram tão difíceis esses momentos. O meu coração sempre me falou que Edward faria algo assim, eu sempre senti que ele brincaria comigo, mas quis arriscar.

Mas, como eu resistiria a ele, meu Deus? Como resistir aquele homem com um beijo saboroso, mente afiada, engraçado, que me abraçava como se eu fosse a única pessoa que merecesse estar em seus braços, cheirava meu cabelo, alisava meu corpo e conhecia tão bem as reações ao seu toque? Como resistir a uma pessoa que foi o mais próximo que também sofreu no passado, que tinha seus medos e frustrações – apesar de não confessá-los? Como pedir que outra pessoa me abraçasse, quando os pesadelos me atormentassem com aquele assaltante atirando na face da minha mãe uma, duas, três vezes e o meu grito me acordasse?


Depois de ficar um tempo considerável ali, peguei a toalha, enrolei no corpo e saí. Vesti um short, uma camiseta, prendi meu cabelo de qualquer maneira e fui até a sala. O apartamento estava organizado na medida do possível.

Alice e Rose tentavam me ajudar de todas as maneiras, mas eu não estava sendo muito agradecida no momento. Elas não falavam da ilusão para mim, apesar de terem noticias... Dos casos delas! Alice tentou de todas as maneiras me animar, indo de “Bella, vamos... hãm... saltar de Bung Jump!”, “Poderíamos ir na exposição de corpos humanos.”, até ‘Vamos à  praia.’ Quando me olhou e viu a minha expressão ‘tô em outro mundo’, gritou: EU VOU TE AFOGAR NAS ÁGUAS DA PRAIA DE HAVANA!

Rose, por sua vez, não comentava nada. Nada sobre o meu estado de espírito, sobre a minha situação degradável, sobre a ilusão ou sobre qualquer outro assunto. Ela apenas perguntava:

- Quando você irá voltar? As pessoas sentem a sua falta. Eu sinto a sua falta.

O que me fazia desabar em lágrimas por não ter forças ou coragem para lutar. Eu queria dar um tempo a mim mesma, mas antes eu estava desleixada por que eu tinha ele por perto, agora eu não comparecia ao ateliê por que eu estava destruída, por causa dele. Fui à cozinha e comecei a tentar fazer um macarrão para comer. Eu precisava reagir e eu estava decidida que iria começar o mais rapidamente possível.

Quinze minutos depois, enquanto eu empilhava tudo que eu precisaria no balcão da cozinha, ouvi o click da porta. Com certeza eram Alice e Rose que agora tinham a chave da porta, por que muitas vezes eu não queria levantar para atender. Eu também sabia que era por que elas estavam com medo que eu fizesse alguma besteira, mas deixei quieto e fingi acreditar que era apenas para poder me alimentar e arrumar minhas coisas sem me incomodar.

- Hey! – Alice falou, adentrando a cozinha com a uma mão cheia de sacolas. – Viemos te visitar! – ela exalava alegria, a minha pequena Alice.

- Como estamos hoje? – Rose perguntou, cautelosa.

Deve ter estranhado que eu estava de pé quando nos últimos dias eu parecia uma doente inválida.

- Melhorando. – respondi, forçando um sorriso sincero. – Estava tentando preparar algo para comer, me acompanham?

Juntas, fizemos um jantar agradável, pomos a mesa e comemos. Eu conversei com elas - o que deixou evidente a felicidade delas com a atitude -, coisas amenas, sobre cinema, música, faculdade e algumas coisas a serem resolvidas no ateliê. Quando levei o garfo pela ultima vez a boca e mastiguei calmamente, anunciei:

- Não se preocupem. Amanhã eu dou um jeito em tudo isso.

- Então... Hãm... Você volta amanhã? – Rose perguntou, tentando não pressionar.

- Sim, amanhã voltarei. Não tem como eu me manter dessa maneira. Eu preciso me distrair... Até esquecer tudo.

- O Jasper me falou hoje que o... – Alice começou.

- Calada! – Rose sibilou para ela enquanto eu me retesava.

Eu não queria saber, eu não precisava saber.

- Mas... A única maneira de superar, é encarando!

- Esquece Alice! Cada um do seu modo, um passo de cada vez. – e virando-se para mim completou: - Amanhã esperaremos ansiosas por você, Bella.

***

Eu fui recebida com muito carinho no ateliê. Vários alunos pararam para me cumprimentar e me dar um abraço, o que me deixou extremamente feliz. Porém, não dei aulas. Parti para o escritório, onde fiquei durante toda a manhã e parte da tarde, resolvendo problemas burocráticos e outras pendências. A quantidade de trabalho acumulada era enorme, o que me fez ficar com a mente ocupada e não me deixou pensar em algo que eu não queria pensar e não deveria. Minha total e inacreditável surpresa foi quando Rose bateu na porta do escritório e adentrou, apreensiva.

- Noticias para você.

Meu coração gelou. Por que independente de quais eram essas noticias, não sei se estava muito interessada em ter conhecimento delas.

- Fale. – ordenei.

- Jacob está lá fora.

- O quê?

- E quer falar com você.

- O quê?

- Larga de idiotice Bella. Você me entendeu. – ela falou ríspida. – Vai atender ou o quê?

Eu fiquei calada por um momento, imaginando o que Jacob queria comigo, depois de quase três semanas sem manter nenhum contato. A minha vontade era de correr para fora da sala, abraçá-lo e falar que eu estava morrendo de saudades, mas eu tinha minha dignidade. A nossa última conversa ainda estava gravada na minha mente, a ferida saturada, mas ainda marcava cada palavra dita. E eu não daria a ele a oportunidade de me ver triste, de saber o que a ilusão tinha me causado.

- Não quero falar com ele. – respondi, apertando as têmporas já que a cabeça começava a latejar.

- Certeza?

- Sim, não quero. – respondi, olhando-a. – A decisão foi dele. Não quero mais ninguém para ficar me maltratando. Eu não me esqueci do que ele falou.

Ela se retirou, batendo a porta ao passar. E eu continuei a fazer o meu trabalho como se não tivesse ocorrido nenhuma interrupção.

***

Quando a noite chegou e eu estava indo para casa, o meu cansaço não era muito fisicamente, mas muito emocionalmente. Passei pelo porteiro e o cumprimentei como de costume.

- Srta. Martínez, suas correspondências. – ele falou, me entregando uma quantidade considerável de papel.

- Obrigada. – e entrei no elevador.

Tinha os papeis costumeiros de todos os meses, com as minhas contas. Tinha publicidade e alguns outros que eu não tinha noção que chegavam para mim há alguns meses. Quando o elevador para no meu andar, meu coração parou junto e eu paralisei. Tinha uma carta. Não uma que eu estivesse acostumada a receber. O nome... O nome me faz parar. De Edward Masen, Nova York, Para Isabella Martínez, rua Luna de La Republica 7, prédio Palace de La Mano, apartamento 321, Havana - Cuba.

Fui caminhando lentamente para o meu apartamento. Abri a porta e joguei a minha bolsa, juntamente com os outros papeis para o lado, segurando apenas a carta que eu tinha endereçada a mim.

Fiquei encarando durante bastante tempo, tentando imaginar o que teria ali dentro, quais palavras estariam escritas, o que eu sentiria se eu lesse. Metade de mim queria abrir desesperadamente o envelope para saciar a curiosidade. A outra metade queria me proteger. Por que eu sabia que se eu lesse, as feridas abertas sangrariam.
                                                                                                               
Coloquei-as de lado, me afastando como se estivesse contaminada. Andei pelo apartamento, olhando de longe para o envelope. Passei as mãos pelo cabelo, amarrei-os, soltei-os. Tomei um copo de água e da porta da cozinha continuava a encarar o envelope. Fui até meu quarto, me sentei na cama, respirei fundo diversas vezes em busca de calma e para relaxar. Porra, como uma carta poderia me deixar assim?

Depois de quase duas horas molhando o rosto, deitada na cama fixando o teto, desisti. Por que não adiantava fugir quando aquela carta continuaria ali, me pressionando a abri-la. E nem por um segundo, em nenhum momento eu pensei em jogá-la fora. E esse era um pensamento que me perturbava.

Corri de volta a sala e peguei o envelope. Senti a textura antes de abrir. Tremendo um pouco, retirei a carta cuidadosamente dobrada, abri e li:

Mi estrella,

Você não sabe a saudade que eu sinto de você. Está tudo tão vazio, tão sem vida sem você. Às vezes me pego pensando se tudo mesmo aconteceu, ou se foi apenas um sonho porque aqui, sozinho, parece que nada realmente mudou. Mas eu sei que mudou; eu mudei. E quando começo a duvidar da verdade, meu coração me lembra da realidade. Eu preciso te pedir desculpas. Eu nunca, nunca quis te magoar. Você foi à coisa mais importante que aconteceu em minha vida Bella, e eu me sinto a pessoa mais desprezível por ter aceitado aquela maldita aposta. Na verdade, eu realmente aceitei por que eu queria ter você. Eu era arrogante o bastante para te colocar como mais um troféu que eu conquistei, e eu não deixaria nada abalar a minha crença de que te conquistaria. O que eu não contava, porém, era que eu realmente pudesse amar você. Que eu pudesse me apaixonar pelo brilho dos seus olhos, pela sua personalidade, pela sua força e caráter, coisas que eu vejo hoje que eu nunca tive, pela sua maneira de amar as coisas mais simples e amar as pessoas que estão ao seu lado incondicionalmente. Ou que eu pudesse me apaixonar pela mulher engraçada e carismática, que ria da minha cara sem nenhum pudor e nunca mediu palavras para falar o que queria para mim. Também não impediu que eu me apaixonasse pela mulher frágil, que na intimidade do seu quarto, tem pesadelos que a fazem acordar chorando, buscando por apoio e carinho quando tudo parece tão vívido. E também não me impediu de me apaixonar pela exímia e talentosa dançarina que você é.

Eu me apaixonei por você Bella, eu juro! Eu me apaixonei por você e nada nem ninguém pode me fazer acreditar no contrário disso, nem mesmo você.

Em todos os momentos eu penso em você. Inclusive ontem quando fui ao Central Park e o cheiro das rosas me fez lembrar o cheiro dos seus cabelos; se eu fechasse os olhos, podia sentir você ao meu lado.

Sei que você não deve ter se preocupado, ainda me lembro do seu rosto contorcido em dor por tudo que aconteceu antes da minha partida, o que assombra os meus pesadelos todas as noites, mas eu fiz uma boa viagem. Para compensar, os meus dias têm sido terríveis por que a todo o momento eu me lembro da tristeza que eu fiz você sofrer. Voltar para o trabalho foi realmente um tormento e quando os pesadelos me assombram eu me pergunto como estão os seus. 

Eu sei que você não irá responder as minhas cartas, mas mesmo assim eu continuarei a mandá-las. Não sei com que freqüência, nem sei também se você irá lê-las, mas elas chegarão.

Perdoe-me, por que mesmo você não acreditando, eu te amo.

Com carinho, Edward.

PS: “A saudade é a nossa alma dizendo para onde ela quer voltar.”

Quando eu terminei a leitura, meu coração estava destroçado, lágrimas escorriam pelo meu rosto e eu apertei aquela carta em minhas mãos, levando junto ao coração. Por que eu sabia de uma coisa: esse homem me destruiria pelo simples fato que eu o amava tanto quanto ele dizia que me amava também.


POV EDWARD

Estava chovendo em Nova Iorque.

Muito conveniente, pensei. Passando uma mão pelo cabelo, suspirei quando chequei o relógio e vi que já estava na hora de ir. Isso não importava para mim, na verdade. Eu estava fazendo hora extra todos os dias no escritório, catando qualquer coisa que me mantivesse ocupado. E isso era irônico por que eu não tinha realmente um chefe para impressionar com minha eficiência; acho que o ego não conta como “cargo superior”. E mesmo se contasse, não faria diferença.

O que me incomodava e muito era que todos os dias, nessa hora, aparecia Emmet para tentar me convencer a sair com ele ou simplesmente ir embora. E todos os dias eu tinha que berrar com ele para me deixar em paz. Não adiantava, no entanto. Ele repetiria o processo pelos restantes dias da semana, e provavelmente retornaria hoje também. Eu nunca realmente tinha tido grandes problemas em trabalhar com um amigo, mas começava a encontrar alguns.

Comecei a procurar nas papeladas algum processo não resolvido, algum assassinato, estelionato, extorsão, divórcio, descumprimento de depósito de pensão, etc. Como não encontrei, chequei no notebook. Nada. Eu não desisti. Revirei minhas gavetas e toda a sala em busca de algum documento que pudesse ter largado em lugar impróprio. Nada mais uma vez.

Aquilo não era possível. Todos os dias, a procura era enorme. Diversos casos em uma única hora. Era claro que eu não trabalhava sozinho, e era claro também que eu havia visitado tantas pessoas e cuidado de tantos casos só naquela semana que não poderia contar nem com uma calculadora. Mas ainda sim, tinha que haver alguma pendência. Se eu tivesse pego algum caso de homicídio, com certeza estaria ocupado. Geralmente o processo é demorado. Mas quem é responsável e faz questão disso é Emmet.

Ele tem uma obsessão com esse tipo de coisa. Estupros, agressões de rua ou familiares, tentativa de homicídio, roubos; tudo isso ele fazia questão de cuidar. Dizia que ser útil como advogado era saber fazer justiça colocando quem devia atrás das grades. Eu não discutia com ele quanto a isso, mas já cogitara que ele se sairia melhor como um policial. Advogados representavam seus clientes, ponto. Nada de opiniões ou sugestões.

Um advogado não precisava acreditar que seu cliente era inocente ou a parte correta na história. Ele só precisava provar que ele era. Ele ganhava para isso, e não para bancar o herói. Eu acreditava fielmente nessa ideologia antes. Tudo mudara. Literalmente tudo. Atualmente, eu estava mais para Complexo de Justiceiro assim como Emmet.

Nada de batidas na porta ou pedido de permissão para entrar, pensando na figura, eis que ele aparece escancarando a porta como se fosse a sala dele. Pela primeira vez em semanas, entretanto, eu não estava irritado por vê-lo. Ele poderia me ser útil.

- Edward. Que surpresa ainda te ver por aqui... – ele ironizou com um sorriso, e fez seu caminho até minha mesa.

- Você é exatamente quem eu queria ver.

Emmet olhou por cima de um ombro, depois de outro, para em seguida levar as mãos à cabeça como se estivesse procurando algo.

- O que foi? Por acaso meu cabelo está crescendo? Meus olhos estão mudando pro verde? – questionou com um falso choque. – Não, eu acho que ainda não sei dançar, quanto mais dar aulas...

Ele realmente não queria continuar com aquilo. Acho que minha expressão disse tudo, por que ele calou a boca.

- Tem algum caso sobrando? – perguntei enquanto milagrosamente ainda tinha paciência.

- Edward, caro amigo... – ele sorriu e se sentou. – É comigo que está falando. Eu sempre tenho casos sobrando. Mas pra quem seria?

- Para mim, obviamente.

Emmet me encarou por um longo tempo, e depois torceu a cara como se a idéia o ofendesse.

- Sem ofensas, mas do jeito que você anda mole, livraria a cara de um traficante na boa. Então, naah, obrigado, eu consigo me virar.

- Eu preciso fazer alguma coisa, Emmet. Você mal dá conta de tudo, qual o problema?

- Eu não vou te ajudar a se afogar em trabalho, você sabe que não.

Eu balancei a cabeça, e bufei. Eu devia saber que ele não aceitaria. Mas eu ainda tinha um último argumento.

- Eu sou seu chefe. – declarei.

- E daí?

Isso é o que dá trabalhar com amigos. Eles não respeitam quem manda ali.

- E daí que eu estou ordenando a você que passe alguns dos seus casos para mim. E antes que você diga que eu não posso fazer isso... Primeiro: Eu posso por que eu posso tudo. Segundo: Eu não quero perder clientes e se você não conseguir dar conta de todos eles, é exatamente isso que vai acontecer.

- Edward, desista do discurso “Eu sou Deus, eu posso mais... UaHaha”. Eu não vou passar meus casos para você.

- Você vai sim. Por que se não fizer, eu te demito.

Emmet começou a rir. E depois gargalhar. Muito. Eu não acompanhei. Nem mesmo se eu quisesse, poderia. Eventualmente ele percebeu que eu não estava brincando.

- Você não pode me demitir... – murmurou incrédulo.

- Sim, eu posso. Motivos para isso, como você sabe, eu tenho.

- Edward... Isso é ridículo.

- Não importa. Mas não vai acontecer se você colaborar.

Ele balançou a cabeça, e nem se deu ao trabalho de responder. Simplesmente se levantou e foi saindo. Eu quis xingar. Eu não ia mesmo demiti-lo, por que afinal de contas, eu estava mesmo um molenga. E por que eu não era louco. Talvez um pouco, mas não a esse ponto.

- Emmet, que inferno! Eu preciso...

- Não, você – em um instante, ele estava na minha frente outra vez. – precisa se tratar.

Ele não estava com tanta raiva como aparentava, eu podia dizer. Não era isso que demonstrava a sua expressão. Era difícil distinguir, por que Emmet sempre resolvia a situação sendo a mente a ceder um pouco. As únicas emoções ruins que eu conhecia dele eram raiva, o que já não era comum, e tristeza, o que presenciei quando voltamos de Cuba. Mas não era nenhuma destas. Era talvez preocupação e... Pena?

Eu ia responder àquilo, eu queria responder àquilo, mas ele foi embora antes que eu pudesse formular qualquer frase no meu cérebro.


***


Eram quase dez horas quando saí do escritório. E ainda sim, foi por obrigação, e não por vontade própria. Eu não agüentava mais as insinuações de Tânia, que depois que estávamos sozinhos no andar, parecia estar muito determinada em ir até minha sala de cinco em cinco minutos. Eu sabia que ela estava estranhando o meu comportamento diferente depois que voltei da viagem, mas parecia que isso a incentivava mais a tentar estimular o meu velho eu.

Ela era uma boa assistente, quando estava se comportando profissionalmente. Este era o único motivo que me impedia de demiti-la.

Antes de ir para casa, resolvi passar primeiro no meu Café preferido e tive sorte por ainda estar aberto. Como um cliente freqüente, eles fizeram a gentileza de me atender antes de fecharem. Claro que o café não era tão bom quanto o da livraria que freqüentava, mas tinha passado a ir muito a esse local por que a livraria fechava cedo e ocasionalmente eu não conseguia chegar lá a tempo.

Depois de tomar um banho, tomei rapidamente o café e fiz um sanduíche só para enganar a fome. Eu nem me lembrava qual era a última vez que tinha almoçado ou jantado de verdade, eu não daria um tempo no trabalho para coisas desse tipo. Acho que minha última refeição decente foi feita ainda em Havana. Eu suspirei, balançando a cabeça. Parecia que cada pensamento meu enquanto eu estava desocupado se remetia à viagem. Não só parecia, era real.

A pasta preta tão conhecida por mim nas últimas semanas estava ao meu lado, em cima da cama. Antes de recolhê-la, chequei o telefone por novas mensagens. Sem me surpreender por isso, havia uma de Esme.

Oi, meu filho. Provavelmente você ainda não chegou a casa, mas resolvi deixar logo essa mensagem. Eu não quero forçar nada e nem pressionar, mas pensei que talvez você pudesse dar uma folguinha no trabalho e jantar com a gente. Pode ser aqui em casa, ou num restaurante se você preferir. Pode ser quando você quiser e estiver disponível... Qualquer dia, ok? Bom, eu fico esperando você ligar. Espero que esteja bem, filho. Até logo.”

Ela não entendia que, tentando não pressionar, com esses telefonemas, ela acabava fazendo exatamente isso. Nesses momentos, eu me perguntava se fiz bem em me entender com eles. Entender? Não, com certeza não foi isso que aconteceu. Eu simplesmente parei de ignorá-los, e honestamente não faço idéia do por que, mas tinha minhas sugestões que tudo isso tinha a ver com o mês em Havana. Por que novamente, tudo tinha.

Ocasionalmente, o meu comportamento deu novo gás às esperanças de Esme. Ela tinha agora começado a se empenhar em reunir nós três para um jantar. Um dia depois do telefonema dela que eu não ignorei, ela apareceu no escritório com um sorriso maior do que o rosto para me ver, uma vez que sabia que eu não ia ignorá-la. Ou melhor, não iria mandá-la dar meia volta e sair por onde entrou. Mas pelo visto, ela queria abusar da sorte promovendo um encontro com meu pai.

Não que isso me incomodasse, por que na atual situação, o resto das pequenas adversidades não era mais nada para mim, ou que eu estivesse evitando. O problema real era que eu não poderia simplesmente parar de trabalhar e sair para passar uma noite de lazer. Eu nem ao menos sabia como me comportaria se eu não tivesse com a cabeça cheia de coisas. Talvez eu começasse a chorar e não parasse mais. Talvez eu surtasse e quisesse matar alguém para diminuir a raiva de mim mesmo. Talvez em um surto psicótico, sem me importar com o que ia acontecer ou se ia acontecer alguma coisa, eu simplesmente pegasse um avião e voltasse para Havana...

Michael Bublé – Home
http://www.youtube.com/watch?v=lbSOLBMUvIE
Another summer day (Outro dia de verão)
Has come and gone away (Veio e se foi)
In Paris and Rome (Em Paris e Roma)
But I wanna go home (Mas eu quero ir para casa)

Por que era exatamente nisso que eu pensava em uma simples saída para pegar um café no corredor. E esses pensamentos misturados a algumas taças de vinho durante o jantar resultariam em uma louca realidade.

Maybe surrounded by (Talvez cercado por...)
A million people I (Um milhão de pessoas, eu…)
Still feel all alone (Ainda me sinta completamente só)
I just wanna go home (Eu só quero ir para casa)
Baby I miss you, you know (Amor, eu sinto sua falta, sabe...)

O único momento do dia em que eu me permitia lembrar com clareza de tudo sem reservas era quando eu não podia mais evitar e tinha de voltar para o apartamento. Não importando que horas fossem, não importando o quão cansado eu estivesse ou se meu dia tivesse sido mais corriqueiro do que o normal, eu tomaria um banho, comeria – ou não – alguma coisa e escreveria. Para Bella.

And I've been keeping all the letters that I wrote to you (E eu estou guardando todas as cartas que escrevi para você)
Each one a line or two (A cada linha ou duas…)
"I'm fine baby, how are you?" (“Eu estou bem amor, como você está?”)
I would send them but I know that it's just not enough (Eu as enviaria, mas sei que não é o bastante)
My words were cold and flat (Minhas palavras eram frias e vazias)
And you deserve more than that (E você merece mais do que isso)

Abrindo a pasta ao meu lado, notei quantas cartas prontas tinham ali e que eu ainda não havia mandado. Eu escreveria sobre toda e qualquer coisa, e sempre terminaria dizendo que sentia saudades dela. Porque eu realmente sentia. Se eu estivesse desconcentrado no meu trabalho, eu sentiria saudades. Se eu estivesse bêbado, sóbrio, no meio termo, eu sentiria saudades. Eu queria que ela tivesse certeza disso, que ela acreditasse nisso. Era a única coisa que eu podia ter esperanças: que ela acreditasse no meu sentimento por ela.

Another airplane (Outro avião)
Another sunny place (Outro lugar ensolarado)
I'm lucky I know (Eu tenho sorte, eu sei)
But I wanna go home (Mas eu quero ir para casa)
I've got to go home (Eu preciso ir para casa)

Demorou tanto tempo para acontecer e então naquele momento, eu não queria que ninguém duvidasse daquilo. Muito menos a causadora de tudo. E mais do que isso, eu precisava sentir que estava conectado a ela de alguma forma. Era disso que eu estava vivendo. Sabia que havia grandes chances de ela não estar lendo, de ela ter jogado fora no momento que viu meu nome... Mas eu não conseguiria parar. Não queria. Mesmo quando não havia nada para escrever, nada de novo, eu escrevia: Te Amo. Muitas vezes; escrevia a mesma frase repetidas vezes até que cobrisse toda a folha. Era a verdade.

Let me go home (Me deixe ir para casa)
'Cause I'm just too far (Porque eu estou muito longe...)
From where you are (De onde você está)
I wanna come home (Eu quero ir para casa)

Procurei por uma folha em branco e por uma caneta. Era estranho eu não precisar escrever de lápis primeiro por que eu nunca errava uma palavra sequer. E eu sempre escrevia sem pensar. Era como se meu cérebro trabalhasse a carta daquela noite durante um dia inteiro, e quando chegasse a hora de escrever, meus dedos se moviam sozinhos seguindo o que meu cérebro comandava e o que meu coração dizia.

And I feel just like I'm living someone else's life (E eu sinto que estou vivendo a vida de outra pessoa)
It's like I just stepped outside (É como se eu tivesse ido embora…)
When everything was going right (Quando tudo estava tão bem)
And I know just why you could not (E eu sei que você não podia…)
Come along with me (Vir comigo…)
'Cause this was not your dream (Por que este não era o seu sonho…)
But you always believed in me (Mas você sempre acreditou em mim)

Foi o que estava acontecendo no exato momento, fechei os olhos por um instante e com exatidão sabia o que queria dizer. Mesmo que ela nunca lesse.

Another winter day has come (Outro dia de inverno chegou…)
And gone away (E se foi…)
And even Paris and Rome (E mesmo que em Paris e Roma)
And I wanna go home (E eu quero ir pra casa)
Let me go home (Me deixe ir pra casa)

Eu tinha a sensação de que, com isso, ela estava a par de toda a minha vida, de todos os meus pensamentos e sentimentos, de que tudo agora se resumia a ela.

Mi estrella,

Hoje eu pensei mais em você do que o normal. Minha reserva de trabalho acabou. Eu não tenho mais o que fazer. Foi muito difícil ter que suportar parte de um dia com a cabeça “clara”. Eu procurei, procurei, e procurei por qualquer coisa que pudesse me ocupar, mas não encontrei nada. Eu não imaginei que fosse acabar tudo tão rápido, mas besteira minha foi pensar que com todas as horas que eu trabalho, os casos durariam para sempre. - Você não tem sugestões para mim sobre como ocupar a mente, tem? - Eu não tinha opções e nem chances de lutar comigo mesmo. Não que eu quisesse. Hoje, minha lembrança de você foi boa. A primeira delas, ao menos.

Recordei do dia em que nos conhecemos. Acredita que eu ainda me lembro do nome da boate? _ Cabaret Tropicana. Eu não ia confessar depois de você ter derramado bebida em mim, mas eu achei você linda. Eu não sei se você percebeu, mas eu precisei de um tempo para parar de admirar você e me concentrar em ficar irritado pelo acontecido. Deusa, uma verdadeira deusa, eu pensava. E não é que eu estava absolutamente certo.

E você também me achou impressionante, não é? Aposto que, se você estiver lendo, deve estar fazendo uma careta pela minha presunção. Mas espero também que tenha te feito rir, como algumas vezes aconteceu. Eu faria todas as palhaçadas do mundo para te fazer rir; ficaria satisfeito por isso, mesmo que eu fosse a piada. Tudo por você.

Eu me pergunto constantemente sobre o quadro que pintei seu retrato. Será que você ainda o mantém? Eu não espero que ainda tenha, mas ainda me lembro dele com clareza. Eu queria que minha marca ainda estivesse no seu coração. Nem que fosse apenas no retrato. Ainda está, minha estrela?

E as coisas no ateliê? Você participou de algum concurso de dança? Acrescentou mais um prêmio à sua sala? Embora as perguntas sejam retóricas, eu sinto que as respostas poderiam ser afirmativas. Sei que você tem talento para isso, tenho certeza de que vai muito longe. Eu sinto um orgulho imenso de te imaginar em uma dessas competições. Você não me deixaria assistir você dançar, não é? Eu ficaria de longe, o mais longe que quisesse, assim você deixaria? Eu sinto falta disso. Do brilho em seus olhos quando se movimenta e de sua expressão de contentamento por esse ser exatamente o seu lugar.

Eu admito: sonho com você dançando também. E às vezes, eles não são tão decentes assim. Sonho com você dançando Dança do Ventre. Confessa minha estrela, daquela vez você estava me provocando um pouco, não estava? Brincando comigo, talvez? Você já sabia que eu não estava conseguindo me controlar perto de você, não é verdade? Eu imagino que sabia; você tinha um olhar satisfeito por estar me afetando tanto. Eu sinto falta disso. Gosto da sua segurança, gosto do jeito como me provocava. Ah minha estrela, eu detesto falar das coisas no passado...

Você ainda se lembra de mim, não é? Eu não quero que você sofra, então não quero que lembre tanto assim. É estranho dizer isso por que na verdade, eu quero exatamente o oposto, mas ao mesmo tempo quero isso também. Por você. É confuso, mas eu já me acostumei com pensamentos divergentes e simultâneos. Só preciso que saiba que eu existi. Só isso, está bom. Sim. Só lembre que eu fui real. Nada mais. Não precisa nem se lembrar da gente, não precisa se lembrar da minha relação com você, só que existiu um Edward que você conheceu... Não precisa manter na mente nada além do meu nome; nem meu rosto se não quiser. Sei que minhas cartas a lembrariam do que aconteceu, mas se você não estiver lendo, realmente não vai ter problema. Queria poder apagar tudo que tem a capacidade de ferir você. Enquanto não encontro um meio 100% eficaz, pode deixar a parte das lembranças por minha conta.

Lembre-se apenas de mais isso, Bella: eu te amo.
Edward.

PS: “A saudade é a nossa alma dizendo para onde ela quer voltar.”


Quanto terminei a carta, dobrei e adicionei ao monte. Será que ela se assustaria se eu mandasse mais de uma ao mesmo tempo? Talvez três? Talvez eu pudesse tentar... Talvez. Talvez se ela se irritasse, pudesse ligar para mim e exigir que eu parasse. Seria o paraíso poder ouvir a voz dela... Talvez acontecesse, talvez. Se eu tivesse sorte, um pouquinho que fosse. Eu não pararia de mandar cartas, e quem sabe ela me ligaria outra vez... Ela sabe meu telefone. Se ela não jogou fora.

O pensamento interrompeu bruscamente minhas esperanças. Eu me forcei a voltar a realidade e deixar suposições de lado. Eu não podia me iludir que ia acontecer, mas não deixaria de torcer que sim. Se eu me concentrasse bastante, podia sentir o cheiro dela outra vez. Foi assim que eu peguei no sono naquela noite.

Bella, eu sinto sua falta... Mais do que eu realmente posso sentir.

Deixe um comentário