Hello, hello!

Aproveitando o feriado prolongado?! Que tal então colocar a leitura de SRLT em dia? O capítulo anterior terminou de forma tensa e... confesso: esse é um dos melhores para mim, mesmo que seja extremamente triste. Vocês entenderão os motivos mais a frente. A partir de agora as coisas ficarão um pouco mais tristes e já nos aproximamos da reta final da nossa história. Não se preocupem, depois de tanto tempo eu e a Gabi já estamos imaginando o final mais do que merecedor para vocês e nossos personagens. Vamos aguardar e enquanto isso vocês curtem a leitura!

Aproveitem a leitura e comentem!

Beijos,



CAPÍTULO 17

POV ISABELLA

Meu corpo parecia ter acabado de receber um grande balde de água fria. Eu olhei firmemente no fundo daqueles olhos verdes, tentando ver qualquer indício de que ele estivesse brincando, mas quando não encontrei um, eu me levantei. Eu não o olhei mais. Eu caminhei, com a coluna ereta em direção a pista. Por que eu não queria acreditar. E eu não queria desabar. E eu não queria chorar. Pelo menos não na frente dele. Por que o aperto que eu estava sentindo no meu coração estava ameaçando me sufocar.

- Bella! – ouvi-o chamar. – Bella, espera!

Eu continuei a andar ou eu iria fracassar no meu propósito. Quando eu percebi, estava correndo. Mas, ele me alcançou e agarrou meu braço, fazendo-me virar.

- Eu posso explicar... – ele começou.

Eu o olhei, com o meu melhor olhar de nojo, repulsa, desprezo e soltei o meu braço. Ele correu e parou na minha frente, impedindo o meu caminho.

- Me deixa explicar, por favor. – ele suplicou.

- Não - tem - explicação! – cuspi as palavras em sua direção. – O que você pensa que eu sou? O que você pensa que é? Você acha que... você acha que... – comecei a engasgar por que o choro estava entalado. – Você acha que pode brincar assim com as pessoas, Edward? – e eu comecei a chorar, por que eu não agüentaria novamente outra dor. E não uma dessa dimensão. – O que você apostou? O que diabos você apostou com eles? Que conseguiria fazer uma mulher que não te suportava acreditar em suas mentiras? Que me conquistaria e depois me levaria para cama como é a sua especialidade? Qual dessas opções? – eu grunhi, odiando aquela expressão angustiada que ele tinha no rosto.

Eu estava angustiada! Estava sentindo dor. Estava magoada, chateada, quebrada, destroçada... Completamente confusa, e um pouco furiosa comigo mesma. Porque eu devia ter seguido a razão, eu devia ter insistido mais em evitar começar um relacionamento com alguém como Edward. Ou melhor, o que até alguns minutos atrás eu acreditava ser um relacionamento. Era difícil de acreditar que tudo não havia passado de uma farsa. De uma ilusão.

Eu realmente pensei que ele fosse diferente. Depois de todo o tempo que passamos juntos, eu enxerguei nele uma pessoa diferente. Porque ele se comportou de outro modo justamente com o objetivo de me fazer de tola. Estava em dúvidas sobre o que doía mais: a traição ou a decepção. 



E não era exatamente como a situação no livro que havia lido. Quanta ironia, constatei amargamente.

- Saia da minha frente, Edward. – pedi com evidente grosseria, empurrando.

Eu queria me afastar dele e ir embora, chegar ao meu apartamento o mais rápido possível. Queria esquecer que isso aconteceu. Queria esquecer que ele existia. Eu já havia enfrentado coisas piores e estava ali, firme e de pé até aquele momento. Não era ele quem iria me derrubar, e eu tinha absoluta convicção nisso. Não negava que estava sentindo um peso no coração, algo que estava tentando sugar a pouca energia que me restava. Mas eu superaria como sempre havia feito.

- Bells, por favor... Escute-me só um instante. – ele segurou meus braços para evitar que eu continuasse tentando ir embora.

Eu me desvencilhei depressa, não suportando nem ao menos o seu toque. Parecia tudo tão errado. Tudo ao inverso. Alguns minutos atrás, o toque dele era o que eu mais queria no mundo.

- Mi estrella...

- Não-me-chame-assim! Eu não sou nada sua!

Ele continuava tentando me segurar, embora seu aperto tenha se afrouxado com o peso das minhas palavras. Mas ele era insistente.

- Escuta, eu sinto muito. Eu... Eu só, Bella... Eu errei no começo e eu sinto muito. Eu sei que está chateada, eu sei que está com raiva... Mas, isso não muda o agora. Não muda o que você sente por mim, e com certeza não muda o que eu sinto por você.

Céus! Aquilo tudo estava resultando em uma terrível dor de cabeça, da minha parte. Será possível que fosse continuar mentindo? Com que propósito era aquilo agora? Será que a aposta ainda não fora concluída?

- Me deixa ir embora.

- Não, Bella... Olha para mim. Você não está prestando atenção, mi estrella. – novamente suas mãos determinadas buscaram minha pele e ele segurou meu rosto firmemente entre elas. – Olha. Para. Mim. – meus olhos traidores atenderam ao pedido extremamente autoritário. – Você está vendo nos meus olhos, não está? Eu agi errado, eu sei... Eu fui idiota, mas eu... Se você não acredita, apenas olhe em meus olhos, porque o coração nunca mente. Apesar dos meus erros, eu amo você mais que minha própria vida, mais que tudo que um dia eu poderia querer ter para mim!

- Você não foi um idiota, você é um idiota! – de repente eu fiquei muito chocada com as palavras que ele disse. Como ele podia?! – E NUNCA, nunca mais repita que me ama. Por que você simplesmente NÃO sabe o que é amar. É por isso que ninguém nunca te amou verdadeiramente Edward, por que você dá chances vazias, falsas, mentirosas. Não tem como ninguém tentar confiar em uma pessoa assim. E me solta agora. Eu não quero que você encoste em mim. Nunca mais.

Eu tentei me soltar mais uma vez e quando eu consegui desvencilhar um dos meus braços, minha mão estapeou a sua face. E quando a minha mão abaixou e a outra se libertou do seu aperto, ela se fechou e bateu forte no seu ombro. E quando eu percebi, minhas mãos estavam esmurrando, batendo, agredindo todas as partes do corpo dele que eu conseguia alcançar. E ele não tentou se defender. Meu grito e novas lágrimas se juntaram a sessão vamos-espancar-o-Edward-porque-ele-é-um-estúpido-arrogante. E quando eu não tinha mais forças para chorar e bater nele, eu caí de joelhos na areia, Minha respiração vindo em lufadas, pensando que talvez eu pudesse desmaiar, por que a dor aliviaria por alguns instantes. Instantes no qual eu pediria para Deus que eu faria qualquer coisa - venderia a minha alma, me jogaria no mar, nunca mais dançaria - mas que, por favor, ele tirasse aquela dor de mim. Ele se ajoelhou na minha frente.

- E o que nós... conversamos? – a voz dele soou mais baixa. – Sobre eu me mudar? Sobre ficarmos juntos? Eu não... Eu estava... Eu falei sério...

Eu não podia acreditar que ele ainda estava falando aquilo. Ele já tinha ganhado, já tinha conseguido. Por que ele estava insistindo naquela idéia absurda como se nada houvesse acontecido? Quando eu levantei meu olhar, fiquei feliz em constatar que ele tinha lágrimas nos olhos – pelo menos os meus murros foram fortes.

- Pois não precisa se dar ao trabalho de voltar! – respondi friamente. Você não precisa mais aparecer aqui. Esqueça que eu um dia você esteve em Havana, que você me conheceu, que eu te beijei, que eu deixei você tocar o meu corpo, que eu toquei o seu. – nesse ponto a minha voz assumiu um tom enojado. – Mas nunca esqueça que um dia você fez uma aposta com os babacas dos seus amigos que era capaz de ganhar uma mulher em um desafio e não por que você fosse capaz de conquistá-la verdadeiramente.  Eu estou com vontade de fazer com que você sinta pelo menos um pouco da dor que eu sinto agora. De verdade. Mas, eu não vou fazer nada disso, será algo como um castigo que você não vai ter. Mas sabe por que não vou o fazer, Edward? Por que nem para isso, você vale à pena.

Eu não esperei para ver sua expressão, e nem reação. Dei as costas de novo e dessa vez não parei. As lágrimas voltaram a escorrer por meu rosto, mas eu as ignorei, enquanto tentava manter minhas pernas se movendo o mais rápido possível.

- Bella! – e então, ele começou a correr.

- Argh. – bufei em meio ao choro.

Será que ele não desistia? A resposta veio automaticamente: não. Insistência era seu segundo nome, afinal, não? Eu não diminuí os passos, e sim os acelerei até avistar o carro. Sem dar chance a segundos pensamentos, pulei para dentro dele assim que estava perto o suficiente. E não olhei para ver se ele ainda estava correndo, se já tinha parado ou se tinha desmaiado na areia.

Assim como fiz ao ligar o carro, tinha a intenção de deixá-lo para trás.


***

Eu dirigi acima da velocidade até chegar a casa. Nunca, em toda a minha vida, eu tinha pensado em morrer – apenas quando os meus pais tinham morrido -, mas dessa vez a dor era tão forte, tão lancinante, que eu desejei por um instante. Por que eu ficaria bem, com as únicas pessoas que realmente me amaram verdadeiramente e a dor... A dor não seria nem lembrança. Por que eu me entreguei. Eu queria viver aquilo. Mesmo com a distância, eu iria tentar.

Se ele falou que era para esperar um mês para resolver sua vida, eu esperaria alegremente. Porque um mês de distância ia ser recompensado com o resto dos meus dias ao seu lado, sentindo o seu carinho, os seus beijos no meu pescoço, a sua mão passeando sugestivamente pelo meu corpo, enquanto enrolava mechas do meu cabelo no dedo, olhando-me tão fixamente. Como se eu fosse desaparecer a qualquer momento, como se eu fosse a pessoa mais linda do mundo, como se o fato de eu respirar fizesse seus dias melhores, felizes, alegres. Como se com o meu olhar, ele pudesse seguir respirando.

Mas... Nada disso foi verdade. Foi apenas uma brincadeira. Uma brincadeira comigo, com o meu coração, com os meus sentimentos. E de repente, lembranças dele apareceram em minha mente. O dia que nos conhecemos... As aulas no ateliê, eu dançando para ele, as provocações, ele cuidando de mim... Ele rebolando ao som de uma música caribenha na cozinha do meu apartamento pensando que eu estava no banho ainda e se virando surpreso quando ouviu as minhas risadas... Chegando entupido de sacolas com waffles, ou tomando um banho comigo, enquanto beijava meu rosto, sugando levemente a água que escorria; a ponta dos dedos percorrendo eroticamente a minha coluna... E as várias vezes que nos unimos de forma tão carinhosa, envolvente, em alguns momentos até mais selvagem, por que era do que precisávamos no momento.
O que foi isso? Parte da vida de outra pessoa?

Estacionei meu carro de qualquer maneira e subi correndo a escadaria da entrada do meu prédio, apenas exclamando para meu porteiro um: “Não deixe ninguém subir. Não quero falar com ninguém.” E entrei no elevador, encostando-me nas paredes em busca de alguma coisa para me firmar.

Quando cheguei ao meu andar, abri a porta do apartamento e depois bati com força e deslizei nela, afundando-me em lágrimas. Por que sempre choramos quando menos queremos?

Eu puxei minhas pernas, abracei meus joelhos e gritei; de raiva. Eu odiava ser passada para trás, ser traída. Eu me sentia indigna de confiança, desolada, fraca... Eu tentei de toda as formas pensar que poderia ser apenas uma brincadeira, mas os meus instintos gritavam que eu estava enganando a mim mesma.

Um click na minha cabeça me fez levantar rapidamente e agarrar o telefone. Disquei o número do celular da Alice. Ela provavelmente sabia. O tapado do Jasper deveria saber dessa aposta, se é que ela também não faz parte dela! Tocou até cair na caixa de mensagem. Frustrada – e ainda chorando – liguei mais três vezes até que ela atendeu.

- Oi, Bella. – ouvi sua voz.

- Você sabia? – perguntei, andando de um lado para o outro.

- Ah meu Deus. Bella, eu ia te contar que eu me peguei com o Jasper no ateliê, me desculpa é que...

- O quê? – perguntei aturdida. – Estou falando da aposta Alice! Da aposta!

- Como?

- O Edward fez uma aposta Alice. Ele nunca me quis de verdade. Era uma aposta com as toupeiras dos amigos dele!

- Eu... Eu... Não sabia. Não... Imaginava. – ela gaguejou, surpresa.

- Rose! Ela sabe! – e desliguei o telefone.

O celular de Rose tocou mais vezes até que ela se disponibilizou a atendê-lo, o que era compreensível, já que era o último dia daqueles... – engoli o palavrão que me veio à mente - daquelas pessoas na cidade.

Quando ela atendeu, eu acusei.

- Desde quando você sabe?

- Sabe sobre o quê? - ela perguntou com a voz descontraída.

- Você sabia não era, Rose? Sempre soube da aposta!

- Você está ficando louca? Do que está falando?

- DA APOSTA! A aposta que Edward fez para conseguir ficar comigo... - falei com a voz chorosa e cansada.

Vai ver nem ela nem Alice sabiam mesmo, mas a minha parte egoísta pedia para que eles também tivessem feito a aposta sobre ficar, pegar, beijar, sei lá o quê com elas na jogada. Seria mais fácil tentar me reconstruir quando tinha pessoas ao meu lado que sabiam exatamente o que eu estava sentindo.

- Eu pensei que você confiasse mais em mim. - ela respondeu friamente. - Se eu soubesse, isso está claro, é óbvio que você saberia. Eu nunca deixaria você bancar a idiota na frente de ninguém, você sabe disso.

- Desculpa Rose... Eu estou tão sem chão...

- Estou indo aí.

- Hey, hey, não se preoc... - mas ela já tinha desligado.

Desligando o telefone e colocando - o na mesa ao lado, me enrosquei no sofá, olhando para o nada. Eu estava transtornada, acusando pessoas que não tinham culpa, não conseguindo enxergar o verdadeiro culpado. O que eu faria agora? Por quê? Por que uma aposta?! De tantas maneiras que você pode conseguir...

Meus devaneios foram interrompidos pela campainha tocando. Quando eu abri a porta e vi minhas duas amigas - as únicas que eu já tive em toda minha vida - ali, me joguei nelas e as abracei. Por que eu precisava de conforto e eu era egoísta o suficiente para pedir que elas me desse todo o carinho delas. E elas eram generosas o suficiente para me darem isso, sem pestanejar.

- Como vocês conseguiram subir? Eu esqueci... Tinha pedido para não deixar ninguém subir.

- A Rose queria partir o porteiro em dois, você sabe que ela não tem lá muita delicadeza. - Alice respondeu, enquanto Rose revirava os olhos.

- Mas a bonequinha de luxo aqui conseguiu reverter tudo antes que eu pudesse se quer chegar perto dele, com todo o seu charme. Ele nos conhece já, sabe que somos suas amigas. Apesar de sentir que de agora em diante, ele me atenderá com um cabo de vassoura nas mãos. Vem, vamos entrar que eu quero entender essa história.

Eu contei tudo que eu sabia. E depois que eu consegui contar como eu tinha batido nele e voltado para casa largando ele na praia, começaram as suposições.

- Eu acho que não estamos envolvidas na aposta. – falou Rose pensativa. – Mas isso com certeza já é certeza. Eu xinguei o Emmet antes de vir até aqui. Ele falou que ele instigou o Edward a aceitar a aposta. O que mostra que o Edward não tem culpa Bella... Bom, - ela completou diante do meu olhar. – não por completo.

- Como não Rose? Ele é há e tentar provar alguma coisa. Você não precisa provar nada a ninguém quando tem integridade o bastante, caráter o suficiente e se preocupa com as outras pessoas. Isso ele não tem.

- Eu não vou me intrometer. Você está com a cabeça quente, vamos discutir. – ela falou.

Alice apenas ficava olhando de um lado para o outro, nos encarando.

- Eu quero ficar sozinha. – falei diretamente para as duas.

- Bella... – Alice começou.

- É serio, é muita coisa para absolver, não sei se estou preparada.

Elas se levantaram, entendendo o meu recado.

- Ok, não esquece que te amamos tá? – ela falou me abraçando.

- Eu sei que sim.
.
- Tchau Bella. Se quiser conversar, estarei aqui. – Rose falou daquele jeito mais sério dela, mas sempre preocupada.

- Está bem.

Cada uma beijou um lado da minha face e por um instante me senti culpada por dispensar elas assim, mas eu precisava desse momento. E quando eu fechei a porta, eu me enrosquei no sofá e comecei a chorar novamente, por que era a única coisa que eu ainda tinha forças para fazer.


POV EDWARD

E então esse era um daqueles momentos em que você está com pressa e nenhum maldito táxi aparece. E quando eu finalmente consegui um, eis que todo o tráfego de Havana resolveu se localizar no mesmo caminho. No meu caminho.

- Não dá para você passar por cima?! – sugeri ao motorista.

Sua expressão era de quem não havia achado a brincadeira engraçada, mas a questão era que eu não estava brincando. Qualquer coisa que me fizesse chegar mais rápido ao apartamento da minha estrela estava ótima para mim. Bufando em impaciência, resolvi catar logo o dinheiro por que eu não ficaria ali perdendo tempo em engarrafamentos, iria a pé mesmo.

Revirei a carteira ao avesso atrás de qualquer notinha, qualquer uma e o meu resultado: nada. Era só o que me faltava. No mínimo, eu tinha esquecido de “reabastecê-la” ou simplesmente pela maré que está banhando o meu dia, as notas desapareceram como mágica da porra da carteira.

Com certeza o motorista não aceitaria cartão, pensei azedo. O que apenas me incitava a uma única opção.

Aproveitando que o taxista estava ocupado observando a morena no carro ao lado, o mais ágil que consegui, abri a porta do carro e pulei para fora. 

- Ei! Volta aqui!

Claro, senta e espera que eu já estou voltando.

Infelizmente, ele resolveu sair do carro também e passou a me seguir. O som das buzinas era infernal enquanto eu me embrenhava em meio aos carros, mas os berros do taxista ainda conseguiam se sobressair “Filho da mãe, caloteiro! Eu quero o dinheiro da corrida!”.

Depois de dar algumas voltas em círculos tentando despistar o taxista atleta, parei um pouco para respirar. Tinha que admitir que ele tinha fôlego; no mínimo, já tinha feito bastante aquilo. Só me permiti cinco minutos de descanso para conseguir fazer minhas pernas funcionarem outra vez e quando dei o primeiro passo, senti meu pé afundando em alguma gosma desconhecida.

Quando identifiquei o que era, praguejei.

- Ótimo! Pisar na merda era o incentivo de que eu precisava! – exclamei irritado como se alguém fosse me ouvir.

Tentei me livrar da sujeira da melhor forma que eu pude, e a partir daí, comecei a prestar mais atenção onde pisava. Não me lembrava de ter tido um dia tão horrível em muito tempo. E devia se levar em consideração, que apenas o final do dia tinha sido ruim. Mas mesmo assim, as situações eram o bastante para o dia inteiro. Ainda que sem a adição da fuga de caloteiro e engraxate grátis do meu tênis.

Tudo ainda seria péssimo por que tudo o que eu conseguia pensar era que se eu não tivesse feito a merda de entrar naquela aposta filha de uma puta, há essa hora, eu estaria com a Bella e não suando feito um porco, com um tênis branco e outro marrom.

Eu não conseguia me decidir se contar havia sido certo ou não. Eu quis bancar o bom moço, e olha a porra que deu. Eu tinha feito a minha estrela chorar. Eu. E pensar que eu quis extinguir Jacob da face da Terra por ter a magoado naquela vez. Eu tinha mesmo o direito de acusá-lo? Provavelmente não.

Eu pensei em ligar para Bella, pela oitava ou nona vez desde que ela me deixou na praia, e assim ela poderia descer e... Nada. Ela não faria isso, e ela não me atenderia. Deus do Céu. Quando ela foi me buscar no hotel de manhã, eu tinha certeza de que tudo hoje daria certo. Que estava destinado para ser assim. E aqui estou eu, entrando no prédio dela – sem ela – com o propósito de lhe pedir desculpas – de novo -.

- Ei, ei, ei. Não pode subir não. – o maldito porteiro se materializou na minha frente quando eu ia em direção ao elevador.

Revirando os olhos, contornei para pegar o acesso às escadas. E lá estava o cara outra vez na minha passagem. Tentei ir para o lado direito e ele se moveu para a mesma direção, tentei ir para o esquerdo e novamente ele bloqueou meu caminho. Ignorei a careta que ele fez com a proximidade, provavelmente sentindo o aroma diferente no ar.

- Olha só. Eu realmente não estou com tempo para dançar agora, tá legal? Se manda daqui!

- Já falei que não pode subir. – seu sorriso cheio de dentes me fez desejar muito ter um alicate para arrancá-los. – A Srta. Bella não quer ver ninguém.

Claro que ela faria isso. Porque é claro que ela sabia que eu vinha atrás dela. E é claro que eu não me daria por vencido fácil assim.

- A Srta. Bella abrirá uma exceção para mim. – rebati tentando mais uma vez passar, e o senhor não-tenho-amor-pela-minha-vida se meteu mais uma vez.

- Talvez um outro dia. Hoje o senhor não sobe. – e novamente, sorriu adorando fazer aquilo. – Devo chamar os seguranças? – ele questionou secamente quando percebeu em meu o olhar o pensamento de que daria uma rasteira nele e correria pelas escadas.

Suspirei, cerrando os punhos em raiva. Sujeitinho nojento.

- Está bem, você não quer me deixar subir? Ótimo. Mas vai ter que agüentar a minha presença.

E dito isso, sentei confortavelmente em uma das poltronas. Ele me encarou com evidente desgosto e se postou atrás do balcão mais uma vez, espichando o olho em minha direção para ter certeza de que eu não havia ido embora. Poucos minutos se passaram, e quando notei, já estava em frente ao porteiro outra vez. Foda-se o orgulho. Eu não podia me dar ao luxo disso agora.

- Por favor, você precisa me deixar subir. 

- Não. – ele mordiscou de uma rosquinha, mastigando devagar enquanto me encarava com superioridade.

- Eu estou pedindo “por favor”. Você tem noção do que é ouvir isso de mim?

- Oh, deve ser muito valioso mesmo. Agora você me convenceu. – revirou os olhos.

A meu ver, senhores não debochavam das pessoas dessa forma.

- Escuta, eu cometi um erro com a Bella e eu preciso muito, muito falar com ela e me desculpar. É muito importante para mim e eu sei que para ela também. Você tem que me deixar ir falar com ela. – eu não acreditava que estava apelando, e ainda assim, não dava a mínima para isso.

- Então... – pausou longamente, observando-me. – Você é o alguém que ela não quer ver. Pois bem, agora que não sobe mesmo. – balançou a cabeça.

- Mas que porra! – dei um chute contra o balcão, para não chutar o maldito porteiro e proferi outros diversos palavrões.

- Está querendo ser preso por destruição de propriedade privada, Edward? – uma voz conhecida pronunciou.

Ergui os olhos para ver Rosalie e Alice saindo dos elevadores. E sem dar muita atenção ao fato de que seus olhares eram hostis demais para minha segurança, fui até elas sem pensar duas vezes.

- Vocês precisam me ajudar.

- Ugh. Que cheiro é esse? – murmurou Rosalie torcendo o nariz em desagrado.

- Um acidente com meu tênis, mas isso não vem ao caso. – balancei as mãos em displicência. Quem se importava com cheiros quando eu estava perdendo a minha estrela? – Por favor, convençam a Bella a...

- Pode parar por aí. – cortou Alice. – A última coisa que você não quer agora é falar com Bella. Tenha certeza disso. E além do mais, nós simplesmente não podemos ajudar você. Até por que, você não está merecendo.

- Vocês não entendem. Eu preciso...

- Sim, nós entendemos muito bem. – interrompeu agora a loira, cerrando os olhos para a minha pessoa. – E se quer mesmo ajuda eficiente, comece a rezar.

E antes que eu pudesse continuar a insistir, elas me deram as costas e saíram. Assim, levando minha esperança embora com elas. Merda, eu estava tão ferrado. Talvez devesse mesmo começar a rezar.

Eu estava muito ferrado mesmo.

No momento em que eu suspirei e enfiei a mão no cabelo, meu celular tocou. Foi algo involuntário tirá-lo do bolso e levar ao ouvido depressa. Talvez ela tivesse pensado melhor, talvez ela tivesse me perdoado, talvez ela me deixasse subir...

- Bella?!

Não, é o Emmet.” – respondeu, eliminando minhas esperanças.

Grunhi de raiva e comecei a andar de um lado pro outro enquanto falava.

- O que foi?

Onde você está, cara?” – sua voz era cautelosa, o que me fez crer que ele já sabia das novidades. – “Eu estou no hotel e você não.”

Que eu soubesse, ainda não devia satisfações da minha miserável vida. Bufei e me apressei para encerrar a ligação.

Edward, não se atreva a desligar...!

Tu. Tu. Tu.

O porteiro ficou me observando andar para direita e esquerda, sem conseguir ficar parado. Senti-me como um objeto de hipnose. Passaram-se longos minutos, e a cada deste, ele parecia me detestar ainda mais. Após uns vinte minutos daquele ritual, o senhor bufou e pôs-se a falar.

- Você vai ter que ir embora.

- Eu não vou embora.

- Espera passar a noite aqui? – perguntou som um sarcasmo evidente.

- Pode ter a porra da certeza.

Eu não estava brincando. Eu esperaria até que Bella finalmente atendesse ao telefone de casa, para o qual eu tentava ligar durante todo o tempo em que estava ali, já que o seu celular estava desligado há tempos. Ou ao menos, até o velho começar a roncar para que eu pudesse subir pelos elevadores.

- Vou chamar os seguranças. – ele ameaçou, tirando o telefone do gancho e me observando como se aquilo fosse me amedrontar.

- Eu não poderia me importar menos com o que você faz.

Céus. Era normal sentir o coração bater mais devagar daquele jeito? Ou então aquela dor no peito desgraçada que estava quase me tirando o ar? Eu devia estar com algum problema cardíaco.

Massageei o peito com uma mão para ver se aquilo ia embora e não adiantou. O ancião do porteiro arqueou as sobrancelhas para meu gesto, como um silencioso aviso de que não era pra eu ter ataque na sua portaria porque ele ia fingir que não estava vendo.

- Rapaz, você não está vendo que não vai conseguir nada? Você poderia fazer um alarde na rua em frente à janela dela, que a Srta. Bella ainda não ia se importar.

- Cala a porra da boca.

Inferno. Eu não precisava de um velhinho gagá ferrando com a minha - já quase inexistente - fé de que mais cedo ou mais tarde ela ia me ouvir. Maldição. Será que ele não tinha que ir trocar a dentadura ou algo assim? Eu precisava manter o foco e com ele e seu incentivo mórbido não ia ser possível.

- A janela dela dá para rua? – perguntei com esperança.

Só então que a idéia me pareceu tentadora. Eu poderia gritar o nome dela cem vezes, em algum momento ela ia aparecer. De repente, ela até poderia descer para me fazer calar a boca. E então, eu a seguraria em meus braços e não iria soltar nunca mais. O porteiro revirou os olhos para minha pergunta.

- Você não tem mesmo limites. – reprovou com uma careta de desgosto. – Já chega. Vou ligar para te tirarem daqui agorinha mesmo...

- Não vai ser necessário. Ele já está indo.

Emmet. Olhei por cima do ombro para ver não só o meu – intrometido – amigo, como o químico a tira colo entrando na portaria. Praguejei umas três mil e quinhentas vezes.

- Perderam seu tempo vindo aqui. – balancei as mãos em um convite – obrigatório – aos dois para que se retirassem pela mesma porta por onde entraram.

- Alice bem deu a entender que seus pés tinham criado raiz no piso. – revirou os olhos, o químico.

- Chega disso, Edward. Vamos embora. – exigiu Emmet, iludindo a si mesmo sobre ter alguma moral naquela situação.

- Eu não vou embora.

Era impossível que alguém entendesse o meu lado? Eu simplesmente não podia dar as costas e ir embora como se isso não fosse nada demais para merecer devida atenção. Ou como se eu pudesse voltar amanhã e tentar novamente. Eu não teria amanhã. Tinha medo do simples termo ‘daqui a pouco’, por que até ele parecia surreal no momento. Eu sentia como se tivessem se passado anos desde que tinha minha estrela segura contra o meu corpo.

Eu detestava não poder fazer nada. Detestava que ela não me deixava ao menos tentar fazer alguma coisa. Ficava revivendo e relembrando as palavras delas. Duras e cheias de mágoa. Enquanto ao mesmo tempo, tentava evitar a todo custo me lembrar. Porque eu precisava ter forças para continuar ali. E as palavras dela me tiravam tudo. Eu não podia fraquejar agora. Não agora. Se isso acontecesse, eu perderia o pouco que ainda me mantinha de pé lutando por ela.

- Edward, deixa de ser babaca. Ela não vai falar com você hoje. Você sabe disso, por que não é burro. Ficar aqui não vai adiantar nada. – comentou Emmet com uma desnecessária grosseria.

Merda de amigo que eu arrumei. Ele devia me incentivar, e não puxar a porra do meu tapete e ainda rir enquanto eu estabacava a cara. Passei as mãos no rosto várias vezes tentando não dar ouvidos ao que ele dizia. Comecei a andar de um lado para o outro novamente. Aquilo evitava que eu precisasse olhar em alguma direção.

- Vão embora, por favor. Eu não... – maldita voz que me deixa na mão nos momentos mais inoportunos. – Eu vou ficar aqui.

- Sério, olha só... – comentou Jasper. – A gente tem consciência que o lance da aposta foi em parte nossa culpa. A gente pressionou você e eu quero pedir desculpas por isso. Foi babaquice. E embora eu saiba que você não vá muito com a minha cara, eu também vou ajudar você se precisar. É só que, tudo que é falado ou feito no calor do momento é pior. Bella está chateada agora, e isso não vai mudar hoje. Talvez em algum tempo você possa falar com ela outra vez.

- A culpa foi exclusivamente minha. – corrigi secamente.

Eu estava com tanto ódio de mim mesmo que me entregaria voluntariamente para o polícia se fosse acusado de um crime do qual eu não fazia a menor idéia do que se tratava. Jasper balançou a cabeça, não era exatamente esse o ponto que ele queria que eu observasse e provavelmente ele estava achando que eu não tinha prestado mais atenção a nada do que ele tinha dito. Eu ouvi cada palavra, no entanto.

- Você tenta amanhã, de manhã. Liga para ela e pede para conversar antes da gente ir. Eu acho que ela vai pensar melhor quanto a isso por que estamos indo embora. Talvez vocês não resolvam tudo, ela ainda vai estar magoada, mas com certeza já é alguma coisa em comparação a hoje. Considere, Edward. – acrescentou Emmet.

Eles estavam certos, e isso não era simplesmente horrível? Era quase insuportável a idéia de ir mesmo, e desistir... Mesmo que fosse por aquele dia. Se o tempo já era escasso, se fosse contar com as poucas horas de amanhã cedo, seria tudo muito pior. E ainda que fosse pior, era melhor. De um jeito ou de outro.

Eu não quis concordar em voz alta e muito menos ter que testemunhar a expressão de contentamento do maldito porteiro por ter conseguido o que queria. Apenas segui através da porta para o lado de fora, indo até o carro que estava a alguns metros da entrada. Emmet e Jasper não disseram nada quando se aproximaram, e eu agradeci internamente por que não queria que o fizessem.

Entrei pela porta de trás a fim de evitar mais contatos, cruzei os braços e fechando os olhos, reclinei a cabeça sobre o encosto do banco. O dia tinha começado maravilhoso, se passado perfeito e terminado da pior forma possível. Tudo o que me restou querer era chegar ao hotel e pedir alguns – muitos – drinques quentes pelo serviço de quarto.


.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.


Na manhã seguinte, engoli um comprimido qualquer para dor de cabeça junto com o copo de água. Pela terceira vez em um minuto, chequei se havia alguma chamada no celular depois das vinte chamadas de minha autoria em quinze minutos. Nada. Era isso a que eu tinha chegado hoje também. Um grande e vazio nada. E fazia umas boas duas horas que estava tentando.

Era claro que quatro da manhã era cedo demais para ligar para alguém e esperar que a pessoa estivesse acordada. Mas mesmo depois de muitos drinques, não tinha conseguido pegar no sono um segundo, apenas contrair uma irritante dor de cabeça que eu tinha que curar, não por me importar com ela, e sim por que precisava continuar fazendo as malas.

Tinha perdido a noção da hora totalmente quando comecei a ligar, ou melhor, eu tinha perdido a noção de tudo ao redor e apenas sabia que deviam ser seis e pouco por causa do nível de claridade no céu e posição do sol. Não tinha me interessado a checar o relógio do celular, por que não queria enxergar nada. Quando notava que Bella não tinha me retornado, eu simplesmente jogava o aparelho de volta a seu lugar anterior.

Voltei a socar os objetos dentro das malas de qualquer jeito, sem saber ao certo o que é que estava guardando. Depois de tudo pronto, arrumei a cama. O que não era algo que eu gostava de fazer, mas precisava fazer alguma coisa. Logo após, automaticamente liguei para Bella umas quatro vezes e não me surpreendi quando ela não atendeu.

Carreguei as duas malas já prontas para a sala e me joguei no sofá, repousando a cabeça em uma mão enquanto apoiava o braço no sofá. Ainda havia o restinho de um drinque em um dos copos e sem pensar duas vezes, recolhi-o e mandei para dentro. Minha boca estava com um gosto azedo e ligeiramente “dormente” por tanto álcool. Eu tinha bebido tanto, que de tão bêbado, eu voltei a ficar sóbrio. E aquilo era uma desgraça.

Quando ouvi um barulho de cartão na porta, não ergui os olhos por que já sabia quem era. Emm e Jasper se aproximaram cautelosamente como se estivessem com receio de realizarem movimentos bruscos. Eles também estavam com suas malas às mãos; reconheci pelo barulho de suas rodinhas contra o piso.

Como eles nada disseram, ergui os olhos para ter certeza que não estava começando a ter miragens auditivas, e Emmet por um momento, abriu a boca para reclamar provavelmente das muitas bebidas que estavam espalhadas pela mesa e tapete, mas desistiu quando olhou para mim. Ele fitou Jasper e o químico começou a juntar toda a bagunça. Eu não me opus; não queria falar.

- E então? – questionou Emmet, mais por ter que dizer algo do que por não saber qual era a resposta.

- É o que você está vendo. – tentei pingar a última gotinha de bebida do copo que segurava na boca, mas antes que pudesse agir, Jasper já tinha tirado o copo da minha mão.

Ele me lançou um olhar reprovador, mas não se demorou muito e saiu com a bandeja com vários copos pela porta. Eu suspirei e chequei o celular, que tinha levado comigo para sala. Nada. Passei uma mão pelo rosto, balançando a cabeça. Por que eu estava acreditando que ela ia ligar, afinal? Estava claro como água que ela não iria.

- Edward, eu não quero te apressar, mas... Nós precisamos ir. – comentou Emmet em um tom baixo. – Até por que, só temos visto para ficar um mês. E como eu já gastei dinheiro com passagem, não estou muito a fim de ser deportado. – tentou fazer piada para amenizar o clima tenso, mas nem ele e nem eu estávamos com humor para isso.

Eu assenti e me levantei. Ele me encarou com surpresa pela rapidez e como resposta, somente sacudi os ombros. Jasper voltou eventualmente quanto já estávamos saindo pela porta e não se demorou em recolher a sua mala. Logo, estávamos deixando o quarto e depois de fazer o check-out, o hotel.


***


Eu olhei ao redor do aeroporto, tentando de todas as maneiras não observar as trocas de carícias entre os dois casais. Era difícil por que eles estavam perto o suficiente para que eu pudesse ouvir os sons dos beijos. Estava impaciente para que liberassem logo a esteira de despache, para assim poder ter a desculpa de me afastar um pouco.

Quando finalmente aconteceu, apressei-me até lá. Emmet e Jasper nem ao menos ouviram aos avisos. Despachei as duas malas, tendo a consciência de pegar minha passagem, documentos e um envelope que precisaria entregar para uma das meninas antes.

No caminho de volta, senti-me ainda mais como um intruso. Parecia que para todo lugar onde eu olhava havia casais interagindo intimamente. Eu os detestei por isso; e os invejei ainda mais. E olha só como são as coisas, logo eu invejando casais quando sempre jurei que nunca formaria um por simples opção.

Desde o instante em que pus os pés no aeroporto, procurei por ela. Quando Emm foi providenciar para que o carro fosse levado para dentro do avião, quando eles encontraram com suas mulheres, quando elas me encararam um pouco confusas sobre como agir; em todos estes momentos, a ausência de Bella era gritante.

Eu fiquei esperando, é claro. Ainda tínhamos tempo até o vôo. A cada movimento de qualquer pessoa, eu erguia os olhos com a esperança de reconhecer os cabelos castanhos e o quadril unicamente da minha estrela. Procurava cada par de olhos a fim de encontrar o verde-água lindo dos seus olhos. E aqui, faltando apenas vinte minutos para o vôo, eu ainda não tinha encontrado.

E nem encontraria. Por que ela não viria. Emmet estava muito errado. Não importava se eu iria embora hoje ou não; o pensamento dela ainda era o mesmo não levando em conta as circunstâncias. Ela era assim. E eu não podia culpá-la nem por isso e nem por nada. Ela apenas estava tentando fazer o melhor para ela. E definitivamente, alguém que é canalha bastante a ponto de fazer uma aposta para conquistá-la só para inflar o seu ego já enorme não era o melhor para ela. E nunca seria.

Quando Jasper se separou de Alice para ir despachar suas malas, vi a minha chance. Era um fato que a amiga morena de minha estrela parecia ser mais fácil de lidar com do que a loira. Eu me aproximei e ela imediatamente percebeu que estava indo em sua direção. Alice franziu o cenho, como se não esperasse que eu dirigisse a palavra a alguém. Nunca mais.

- Eu preciso de um favor.

Ela arqueou a sobrancelha em confusão, e não respondeu. Estendi o envelope em direção a ela.

- O pagamento pelas aulas no ateliê. – expliquei balançando o objeto para indicá-lo. – Eu não me lembrei de entregar antes. Está em cheque.

- Você sabe que Bella não vai aceitar. – ela murmurou quase que generosamente.

- Ela não precisa saber. É só dinheiro, afinal. Você mesma pode descontar. – respondi automaticamente, por que eu tinha certeza que ela diria aquilo. Ela não estava convencida ainda assim. – Eu desperdicei o tempo dela, de... Várias formas. – clareei a garganta quando percebi que estava perdendo o foco. – Inclusive com as aulas extras das quais eu não precisava. E de qualquer jeito, eu tive as aulas. E é justo pagar por elas.

Ela revezou olhares entre o cheque e eu, e em seu olhar estava um pedido claro “Por favor, não me mete nessa história”. Eu não queria optar pela segunda opção, mas ela não estava me deixando escolha.

- Alice, eu vou arranjar um jeito de pagar mesmo que esteja longe daqui. Melhor para Bella que o dinheiro esteja nas mãos de alguém altamente confiável. Se não for você, ou Rosalie, vou procurar outra pessoa.

Ela cerrou os olhos para mim, e balançou a cabeça. Com um suspiro, ela tomou o envelope das minhas mãos. Eu me vi aliviado; era claro que eu não daria um cheque na mão de qualquer pessoa. Sorte que ela não sabia disso.

- Você é realmente muito insistente. – comentou a morena.

Eu assenti. Conferi no meu relógio de pulso, faltavam um pouco menos de dez minutos para o avião decolar. Já bastava. Eu não pensei, não enrolei para evitar ir. Quando fitei Alice novamente parecia que ela já sabia.

- Obrigado pelo favor. – eu tentei sorrir como um gesto educado, mas provavelmente não deu muito certo. – Adeus, Alice.

Ela balançou a cabeça, e cruzou os braços. Embora parecesse mais que estava se segurando. Ela abriu a boca para dizer alguma coisa, mas a fechou outra vez. As palavras que disse foram puramente casuais:

- Tchau, Edward. Faça uma boa viagem.

Quando passei por Rosalie e Emmet, eles ainda estavam se agarrando. Eu não sabia ao certo se devia interromper, mas quando o primeiro aviso de embarque soou, os dois se separaram. Rosalie me fitou brevemente, e eu soube que estava certo quando decidi pedir o favor a Alice.

- Adeus, Rosalie.

Ela balançou a cabeça em cumprimento. Troquei um olhar com Emmet, e segui para o portão de embarque. Era bom que eles tivessem esses últimos minutos para se despedir com o máximo de privacidade que conseguissem. Passei pela segurança e pelos corredores rapidamente. Não por estar com pressa, e sim por não estar prestando atenção ao redor.

Tanto que quando pude notar, já estava sentado em minha poltrona. Quando Emmet e Jasper finalmente apareceram, não falaram nada. Jasper estava levemente lacrimejando e Emm estava com uma expressão bem não-mexe-comigo-se-quer-que-sua-cabeça-continue-grudada-ao-resto-do-corpo. Eu queria dizer algo para ajudar, por que eles tentaram fazer o mesmo comigo, mas eu não era bom nisso. Então imaginei que o silêncio era o melhor que eu podia fazer.

Jasper começou chorar de verdade quando o piloto começou a dar características recomendações antes de decolar. Emmet gritou com uma aeromoça grosseiramente e exigiu que ela trouxesse um lencinho para seu amigo maricas, com estas palavras. Sua tristeza se manifestava com a raiva, como era evidente.

Eu fingi que não estava vendo nem ouvindo nada. O que não era nenhum pouco difícil. Senti quando o avião começou a se movimentar e observei, com um milhão de sentimentos diferentes, enquanto ganhávamos altura e a capital se distanciava cada vez mais.

Deixe um comentário